Reservatórios em queda, mas hidrelétricas sustentam o sistema

Reservatórios caem em novembro, mas hidrelétricas seguem sustentando o sistema elétrico brasileiro

Os últimos boletins do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram um cenário de atenção para os reservatórios do país neste final de primavera. No relatório divulgado em 19 de novembro pela Sindenergia, que compila dados oficiais do ONS, o submercado Sudeste/Centro-Oeste – responsável por cerca de 70 % da energia armazenada no país – registrou queda de 0,1 ponto percentual em comparação com a semana anterior, atingindo 43,1 % de armazenamento, o equivalente a 88 105 MW-mês de energia disponível. As usinas de Furnas e Nova Ponte, duas das principais da região, operavam com 31,79 % e 37,17 % de seu volume útil, respectivamente.

O Sul vive uma realidade distinta. Graças às chuvas acima da média, os reservatórios do Sul alcançaram 93,2 % da capacidade, com 19 059 MW-mês de energia armazenada e entradas naturais de água (ENA) de 8 437 MW médios (95 % da média de longo termo). O boletim destaca que as represas de Governador Bento Munhoz e Passo Fundo apresentavam 97,53 % e 95,66 % de armazenamento, respectivamente. No Norte, a situação é mais delicada: o nível dos reservatórios recuou 0,7 ponto percentual, para 65,8 % de capacidade, com 10 074 MW-mês armazenados e ENA de 1 699 MW médios (apenas 37 % da média de longo termo). No Nordeste, os reservatórios estavam em 46,1 %, com 23 853 MW-mês de energia e ENA de 1 290 MW médios (23 % da média de longo termo); a usina de Sobradinho, principal fonte da região, operava com 41,35 % de volume útil.

Além dos níveis atuais, o ONS revisou suas projeções para a carga de energia no mês. Em 14 de novembro, a entidade divulgou que espera uma carga média de 81 326 MW, praticamente estável em relação ao mesmo período do ano anterior (0,1 % de crescimento, ante projeção anterior de 1,4 %). O órgão também informou melhora nas chuvas no Sul, com afluências de 101 % da média histórica, e reduziu as estimativas de vazões para outras regiões: no Sudeste/Centro-Oeste a projeção caiu de 82 % para 79 % da média, no Nordeste de 36 % para 32 % e no Norte de 80 % para 49 %. Mesmo assim, a expectativa é que os principais reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste encerrem novembro com 44,2 % de capacidade, apenas 0,2 ponto abaixo da previsão anterior.

Esses números mostram a importância de uma gestão cuidadosa da água e da flexibilidade operativa das hidrelétricas. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), de janeiro a outubro de 2025 foram inauguradas 113 usinas, acrescentando 6 564,81 MW à matriz – com destaque para 11 pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) que somaram 199,3 MW e uma usina hidrelétrica de 50 MW. Essa expansão faz parte de um esforço contínuo para modernizar e reforçar a infraestrutura hídrica, enquanto fontes renováveis variáveis, como solar e eólica, avançam rapidamente.

No entanto, a participação das hidrelétricas continua sendo o pilar do abastecimento nacional. A ANEEL lembra que 84,42 % da capacidade instalada brasileira provêm de fontes renováveis, e a maior parte desse volume corresponde à geração hidráulica. As hidrelétricas oferecem serviços de regulação e armazenamento que nenhuma outra fonte consegue fornecer com a mesma escala: durante períodos de pico, podem turbinar mais água; em momentos de sobra, armazenam energia em seus lagos, funcionando como “baterias naturais”. Essa flexibilidade permite integrar usinas solares e eólicas ao sistema sem comprometer a confiabilidade.

Especialistas ressaltam que os episódios recentes de chuva irregular reforçam a necessidade de diversificar e, ao mesmo tempo, cuidar da infraestrutura existente. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) lançou, em novembro, uma Nota Técnica sobre repotenciação e modernização de usinas, na qual identifica impactos econômicos da degradação dos equipamentos e estima o potencial de ganho de eficiência, energia e capacidade instalado através de substituição de máquinas e turbinas. De acordo com o estudo, investimentos adequados podem aumentar a confiabilidade do sistema e gerar energia adicional sem novos impactos ambientais.

Para especialistas, a combinação de repotenciação, expansão de PCHs e integração com fontes renováveis variáveis é o caminho para enfrentar períodos de escassez. Embora a perspectiva de cargas estáveis em novembro seja animadora, a experiência de 2021 mostrou que estiagens severas podem exigir despacho de termelétricas caras, pressionando tarifas. Por isso, reforçar a matriz hidráulica com modernização, melhor gestão de bacias e políticas de conservação é fundamental para manter contas estáveis e avançar na transição para uma economia de baixo carbono.

Em resumo, mesmo com a redução pontual do nível dos reservatórios em algumas regiões, as hidrelétricas seguem garantindo a sustentação do sistema elétrico nacional. A integração crescente de fontes como solar e eólica amplia a diversidade, mas é a capacidade de armazenamento, regulação e flexibilidade das hidrelétricas que mantém as luzes acesas e segura a tarifa do consumidor.

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