Senado avança em teto para tarifa de Itaipu: de US$ 17,66 para US$ 12/kW a partir de 2027

Senado avança em projeto que fixa teto de US$ 12/kW para tarifa de Itaipu a partir de 2027

O projeto, de autoria do senador Espiridião Amin (PP/SC), teve relatório favorável do senador Laércio Oliveira (PP/SE). O texto:

  • Estabelece teto de US$ 12/kW para a energia correspondente à parte brasileira da geração de Itaipu.
  • Mantém a tarifa da parcela paraguaia eventualmente cedida ao Brasil sujeita às negociações bilaterais, sem o teto.
  • Define que a regra passará a valer a partir de 2027, com reajuste anual pela inflação dos Estados Unidos e revisões extraordinárias apenas por motivos ligados à operação, segurança ou custos efetivos de geração.

O relator incorporou emenda que vincula o mecanismo a um fator redutor, destinado a compartilhar com os consumidores eventuais ganhos de produtividade da usina.


A conta: dívida quitada, tarifa alta

Para justificar o teto, o relatório se apoia em uma nota técnica da Academia Nacional de Engenharia (ANE), apoiada pela Associação Catarinense de Engenheiros, segundo a qual a tarifa de Itaipu poderia hoje ser inferior a US$ 10/kW.

Os engenheiros afirmam que:

  • O valor de US$ 19,28 negociado em abril de 2024 estaria cerca de 80% acima do que seria esperado pelas regras do Tratado.
  • Essa diferença representaria algo como US$ 1,5 bilhão por ano a mais, arcados pelos consumidores brasileiros, em função de despesas classificadas como “não operacionais”.

O relator argumenta que, com a quitação da dívida de construção da usina, é razoável esperar que a redução de encargos se traduza em modicidade tarifária — e que isso ainda não aconteceu na escala compatível com o porte de Itaipu.


Limites do projeto: o que ele não muda

Apesar de provocar manchetes sobre “tarifa mais barata em Itaipu”, o projeto tem limites claros:

  • Não altera o Tratado de Itaipu, que continua atribuindo à binacional competência para formular a tarifa cobrada da ENBPar (Brasil) e da Ande (Paraguai).
  • O teto vale apenas para o montante de energia correspondente à parte brasileira, não alcançando a energia paraguaia cedida ao Brasil.
  • A revisão extraordinária do valor máximo não pode ser usada para cobrir despesas alheias à geração, transmissão e comercialização da energia — ou seja, o projeto tenta blindar o teto contra “pedaladas administrativas”.

Além disso, o texto ainda será analisado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) antes de seguir, em tese, ao Plenário ou a outros ajustes regimentais. Nada garante que o valor de US$ 12/kW seja mantido até o fim da tramitação.


Itaipu em expansão: mais duas unidades geradoras no radar

Enquanto o Congresso discute tarifas, a própria Itaipu Binacional avalia novos investimentos para ampliar a capacidade da usina, inclusive com a instalação de mais duas unidades geradoras.

Segundo o diretor-geral brasileiro, Enio Verri, três linhas estão em análise conjunta com o Paraguai:

  1. Instalação de painéis solares flutuantes ou sobre o fio d’água do reservatório;
  2. Aumento da produtividade das 20 unidades geradoras existentes (repotenciação, modernização de equipamentos);
  3. Construção de duas novas unidades geradoras, ampliando a potência instalada além dos 14.000 MW atuais.

A decisão final, contudo, não depende apenas da usina: passa por estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e por avaliação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que precisa responder a três perguntas simples e decisivas:
O Brasil precisa dessa energia extra? Em qual formato? A que custo?


Análise: Itaipu, tarifa e a narrativa da “energia barata que não chega”

Para o público do Hidro é Vida, esse movimento em Itaipu se encaixa em uma narrativa mais ampla:

  • O país tem sobra estrutural de energia e uma matriz majoritariamente renovável, mas o consumidor paga uma das contas de luz mais caras do mundo, inflada por subsídios, encargos e decisões políticas acumuladas — debate recorrente em análises recentes do setor.
  • A combinação entre o novo marco elétrico e o teto para a tarifa de Itaipu aponta para uma tentativa de reequilibrar essa equação, forçando que ganhos de produtividade, quitação de dívidas e menor risco hidrológico sejam, de fato, compartilhados com quem paga a conta no fim do mês.

Do ponto de vista político, o projeto de teto tem forte apelo:

  • É simples de comunicar (“Itaipu vai ter tarifa máxima de US$ 12/kW”).
  • Pressiona a própria binacional e os gestores do setor a explicarem por que, mesmo sem dívida de construção, a tarifa continua alta.
  • Abre espaço para discutir transparência de custos não operacionais em grandes empreendimentos hidroelétricos.

Mas há riscos:

  • Um teto mal calibrado pode desincentivar investimentos futuros, especialmente se não vier acompanhado de uma discussão honesta sobre quais custos são legítimos e quais não são.
  • Se o debate ficar restrito à tarifa de Itaipu, sem atacar o conjunto de subsídios e encargos da CDE, o impacto final na conta do consumidor pode ser mais simbólico que efetivo.

No limite, Itaipu vira o palco perfeito para uma discussão maior: como equilibrar expansão renovável, segurança de suprimento e justiça tarifária em um sistema que continua recorrendo a térmicas caras sempre que a hidrologia falha.

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